Menos Dumas, menos trama, mais aventura

 

“É jovem, deve ser valente por duas razões: a primeira, porque é gascão; a segunda, porque é meu filho. Não receie as ocasiões e procure as aventuras.”

Les Trois Mousquetaires de Alexandre Dumas

Versão de 2011, esbanjando ação e reduzindo a estória a mero acessório

Um dos romances históricos mais célebres da história, verdadeiro carro chefe de vendas dos livros de origem francesa em todo o mundo, hoje cai novamente no gosto popular com o novo remake dirigido por Paul W. S. Anderson, com um elenco cheio de estrelas como Milla Jovovich e Orlando Bloom.

O filme – verdadeira ode ao fantástico – mal fora lançado nos cinemas e a editora Generale decide empreender uma maquiagem severa na capa de sua versão de Os três mosqueteiros e transplanta o pôster do filme para a capa do livro.

A atitude não é de todo inesperada, de fato; não traz novidade alguma, mas engana o leitor. A tentativa de se imprimir no livro o que está nas telonas só mostra um modo de se aproveitar a onda do momento – na esteira do sucesso do filme – buscando-se a venda da boa e clássica versão de 1844, publicada pelo Le Siècle na forma folhetinesca. Seguindo o momento literário do romantismo, o livro atendeu ao seu momento histórico e tornou-se um best-seller lendário até os dias de hoje, sendo conhecido como uma obra de ação, aventura e romance.

Os três mosqueteiros é um daqueles livros que todos nós, em algum momento da vida, já comentamos – muitos já leram as versões ilustradas – mas poucos se aventuraram na leitura da tormentosa versão original de oitocentas páginas, seja da Zahar ou mesmo algumas das conhecidas versões de bolso com texto integral. Aliás, depois do lançamento nos cinemas dessa nova filmagem, ficou claro que inclusive os roteiristas não se deram ao trabalho de ler a obra completa.

A cena foi inspirada na obra de Dumas, mas ganhou exageros com o tempo

Pautado por ouvir dizeres, o clássico de Alexandre Dumas vem sendo atualizado com o tempo, ganhando ação e perdendo estória, distanciando-se cada vez mais do original, e dando ao público uma imagem errada da obra de Dumas.

A sinopse é praticamente de domínio público. O jovem d’Artagnan, membro da nobreza rural e empobrecida do reinado de Luis XIII, decide ir para Paris juntar-se à guarda dos mosqueteiros, incentivado por seu pai, que nunca fora mosqueteiro, mas sim um grande compatriota que servira junto com o comandante da guarda real, o sr. Tréville, nas guerras de religião.

A caminho de Paris, a confusão parece perseguir o jovem Gascão, que já se arremessa ao acaso no coração da trama, deparando-se com os conhecidos personagens da dúbia e perigosa Milady Winter e o capitão Rochefort em um encontro secreto em plena viagem à capital, ambos agentes do astuto Cardeal Richelieu.

Em Paris, d’Artagnan não consegue o posto – o chefe da guarda suspeita do jovem, crendo tratar-se de um agente do cardeal. Indignado, o pobre nobre sai irritado e apressado do gabinete, mas a sua pressa e ira ferem, singularmente, a honra de três conhecidos personagens: Athos, Porthos e Aramis, que demandam por um duelo com o jovem.

Marcado o embate, são os personagens surpreendidos pela guarda do Cardeal, a protagonizar uma das poucas sequências de ação da obra: “E os nove combatentes arrojaram-se uns sobre os outros, com uma fúria que não excluía certo método”.

A confusão dos heróis repercute em Paris e acirra os ânimos entre a guarda do Cardeal e a guarda do Rei, mas gera um forte laço de amizade entre o jovem nobre e os experientes mosqueteiros. Assim a estória se desenvolve, com d’Artagnan apaixonando-se por uma das acompanhantes da rainha Ana d’Áustria, que acaba buscando sua ajuda para livrá-la de uma trama que o Cardeal pretende vitimá-la.

Alegando uma suposta traição com o Duque inglês de Buckingham, Richelieu recorre a Milady Winter para criar uma discórdia na corte com o roubo dos ferretes de diamante da rainha, alegando-se que eles teriam sido dados como presente para Buckingham.

 

“—Estou perdida – murmurou –, estou no poder de pessoas sobre as quais posso tanto como sobre estátuas de bronze ou de granito. Conhecem-me de cor e estão couraçadas contra todas as minhas armas. É, entretanto, impossível que isso acabe como eles decidiram.”

 

A trama é temperada com muitas estórias dos mosqueteiros, suas penúrias, suas situações financeiras, seus jantares, suas aventuras amorosas e seus conflitos psicológicos. Já d’Artagnan mostra-se um jovem arrogante e valente, perdido em amores por sua amada Constance Bonacieux. Os personagens dos próprios criados dos mosqueteiros, apesar de serem pouco mencionados, são de grande expressão e contribuem para a construção dos personagens de seus mestres.

Versão adaptada para o cinema em 1993, com menos exageros e mais estória.

A obra de Dumas esta claramente  à frente de seu tempo, com uma trama envolvente através de uma narrativa fluida com muito diálogo no estilo clássico. O leitor terá a impressão de que está lendo uma peça de teatro, principalmente no julgamento de Milady Winter, com detalhes que remetem o leitor para as clássicas tragédias gregas – as descrições são comedidas e as cenas são descritas no seu essencial. Sem exageros, o leitor facilmente se verá envolvido nas intrigas de Richelieu e nas aventuras dos mosqueteiros.

Entretanto, metade da obra gira em torno de estórias paralelas contadas pelos personagens, ou mesmo longas odes de amor feitas por d’Artagnan à sua amada, normalmente descritas com boas doses de vinho em tavernas parisienses.

A aventura, tão aclamada pelas versões resumidas da obra e por seus leitores, manifesta-se em pouco mais que três momentos em todas as quase oitocentas páginas de estória, sendo a principal protagonizada no cerco de La Rochelle, no qual os mosqueteiros defendem um posto avançado do exército francês.

Os leitores que esperam estocadas de todos os lados, sabres digladiando-se ferozmente, tiros de canhão, uma batalha aberta entre as duas guardas reais e a ode à honra e à aventura irá se decepcionar; o livro não tem essa pretensão.

Os destaques são a construção magistral dos personagens de Milady Winter e do Cardeal Richelieu. O leitor fica desejoso de vê-los aparecer na trama, chegando, inclusive, a ofuscar os personagens principais. Dinâmicos, são as figuras que mais surpreenderão, tanto pela sagacidade e inteligência quanto pela esfericidade, o que impressiona muito, visto que o livro é de natureza romântica, na qual não se pensava ainda na criação de personagens esféricos.

No mais, os filmes trazem um mero panorama do essencial da estória, e os personagens são colocados de modo bem diferente, além do argumento da obra ser outro. Quem busca o filme no livro, irá se frustrar, são totalmente diferentes, mas identificar no filme traços da estória original é bastante divertido.

Trata-se de um livro romântico – a aproximação com as obras de Camilo Castelo Branco não é de todo exagerada – o livro tem um apelo típico de sua época. A cena de d’Artagnan subindo em uma árvore só para ver sua amada é de uma hilaridade que só livros da época romântica poderiam trazer; mas a dinâmica e a trama inusitada conferem a ele um carisma que conquista leitores até hoje, e resulta na criação de obras cinematográficas das mais diversas, com apelos dos mais distintos.

Vale a leitura.

“– O senhor é novo – respondeu Athos –, e as suas recordações amargas têm tempo de transformarem-se em gratas memórias.”

 

Algumas verdades

(conto o desfecho da estória original, cuidado!)

 

 

Para o espanto geral, no fim: d’Artagnan entra para o serviço do Cardeal, e, surpresa, nunca teve nada contra Richelieu propriamente, e seu pai sempre colocou o Rei e o Cardeal como os homens de maior confiança da França.

Pior: d’Artagnan torna-se amigo de Rochefort, aquele personagem que sempre aparece de preto nos filmes, retratado como um sanguinário, capitão da guarda de Richelieu. Já os mosqueteiros se separam no fim e a amada do jovem Gascão é assassinada, bem diferente da estória contada nos cinemas…

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Lucas Morelli
Lucas Morelli (182-11) escreve aos sábados para sua coluna Literatura no Largo.

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