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Memória das eleições do XI: The Pravda #1

Arcadas inicia hoje uma série de postagens de antigas cartas programas que concorreram ao XI de Agosto

No começo desta semana Luiza Rehder, ilustradora do Arcadas, mostrou para a equipe do jornal a coleção de cartas programas da época de seu pai – franciscano que estudou na faculdade nos anos 1980. Não é preciso dizer que a descoberta da Luiza causou uma pequena comoção em nós, que acompanhamos o que acontece no XI o ano todo e passamos outubro lendo as propostas e conversando com as chapas da faculdade.

A coleção em si é um tesouro. A maior parte das cartas são de 1984, ano em que os estudantes se mobilizavam pela Diretas Já e é claro que as chapas da São Francisco, como hoje, falavam o tempo todo disso. Mas também como hoje falavam muitíssimo do XI, de suas dívidas (sim, elas já existiam), da necessidade de diminuir sua burocracia, etc. A estética, os temas e a própria linguagem mudaram, mas como acontece na “sempre nova velha academia”, muita coisa se repete.

A comoção maior, porém, surgiu por conta de uma carta programa específica. Sim, como o título da matéria já denunciou, estamos falando da The Pravda, a lendária chapa que elegeu o jornalista Eugenio Bucci e o prefeito Fernando Haddad. Não poderíamos começar por outra que não ela.

O nome da chapa é em si uma paródia. O “The” aparece com a tipografia antiga do New York Times, bastião do jornalismo americano desde sempre. Pravda aparece em cirílico, como o jornal da União Soviética. A mistura de palavras foi escolhida como um jogo de palavras para soar “depravado”. “Só o nome já era uma recusa do mundo bipolar. (…) The Pravda era um neologismo que recusava o status quo e sinalizava para uma sociedade emancipada, erótica e livre”, afirmou Bucci em um perfil de Haddad na revista piauí.

A carta programa é de longe uma das mais criativas já vistas no XI. A diagramação foge da padronização simplificada que infesta os papéis de outubro hoje em dia. Com uma mistura fluida de textos criativos, publicados em tipografia e à mão, e desenhos, ela se parece com as colunas que Millôr Fernandes manteve durante décadas em diversos veículos –  mais página de um caderno do que carta programa.

Gestão. Misto de chapa politizada – a maior parte dos membros era ligada ao PT – e chapa de humor, a The Pravda conseguiu se eleger em 1984, primeiro com Bucci como presidente e Haddad tesoureiro. As dificuldades de se fazer gestão na época, porém, já eram tão grandes como as de hoje, como contou o então presidente à piauí, tendo que administrar um patrimônio que incluía restaurante, gráfica, ações, Campo do XI, Casa dos Estudantes e todos os funcionários e contas que vêm no pacote. A complexidade do XI e o bom trabalho de Haddad como tesoureiro, porém, ajudaram a catapultar sua carreira política : “A gestão do Fernando foi tão brilhante que todos concordaram que o próximo candidato tinha que ser ele.”

As imagens foram gentilmente cedidas ao Arcadas por Alvaro Luiz Rehder do Amaral (“Gandhi”)

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