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Farewell, Mr. President: O legado “pós-racial” de Obama

Poderia a nação mais influente do mundo, com as chagas de sua segregação racial ainda notoriamente expostas, eleger um negro para o maior cargo do Ocidente? “Yes, we can!”, responderam os americanos em 2008. A eleição de Barack Obama trouxe um impulso de otimismo para o panorama das relações raciais nos EUA, com possíveis repercussões mundiais. No entanto, o que se observa é que os atritos raciais na era Obama são os maiores em uma geração inteira. O que deu errado?

Criança pede para sentir o cabelo de Obama.

Criança pede para tocar o cabelo de Obama. “É igual ao meu!” (Wikicommons)

Com a proximidade das eleições norte-americanas, muito se confabula sobre o legado da presidência do primeiro negro a ocupar a Casa Branca, Barack Obama. A execução de Bin Laden, nova regulamentação dos planos de saúde, casamento gay e… a deflagração de uma nova era pós-racial com o apaziguamento das tensões deixadas pela Abolição? Bem, certamente havia expectativas um tanto exageradas nos ombros de Obama.  Talvez por isso haja um desapontamento, muito justo, de parte da população quanto à sua contribuição para o desmantelamento do racismo institucional.

“Não existe uma América Negra, uma América Branca, uma América ‘Latina’ ou uma América Asiática. Existem os Estados Unidos da América” , emulava Obama, em 2004, um discurso de união que pavimentaria o caminho vitorioso para sua campanha depois de quatro anos. Essa retórica mítica da comunhão das raças, muito conhecida aqui pelas terras tupiniquins, ganha contornos inéditos na boca de Obama. Na mais desvairada elucubração de Bill Clinton ou George Bush sobre teoria do “melting pot”, jamais qualquer um deles se arriscaria sugerir que, como resultado de uma integração bem sucedida, raça já não era um fator relevante na vida social norte-americana. Pelo menos não sem ser acusado de se utilizar da sua influência com má fé para invisibilizar as questões raciais dramaticamente postas. Se Abraham Lincoln ainda foi capaz de apresentar a Abolição, agora apenas um presidente negro estaria creditado para indicar o novo capítulo da saga afro-americana rumo à cidadania. E um novo capítulo vem com sua própria narrativa, linguagem e termos. No caso do presidente Obama, uma palavrinha em especial não saía da boca dos jornalistas assim que sua candidatura começou a ganhar peso em 2008: pós-racial. Incrustado nesse conceito estava o sonho de toda uma geração de ultrapassar juntos as barreiras do racismo amalgamado com uma retórica de “daltonismo racial”. O apresentador da MSNBC, por exemplo, se orgulhava em afirmar durante a cobertura das eleições que “se esquecia, às vezes, de que Obama era negro”.  O problema é quando quem alega não ver cor, apenas o faz para não ver também seu privilégio.

Nesse sentido, é possível dizer que Obama se aproveitou dessa miopia voluntária de parte da população e capitalizou em cima disso. Como resultado, grande parte do seu eleitorado branco passou a acreditar que Obama era uma espécie de guru messiânico enviado por Deus para cumprir a profecia de Martin Luther King e qualquer resquício de animosidade racial seria de sua responsabilidade direta. A verdade é que é preciso muito mais do que um negro na Casa Branca para sanar 300 anos de segregação, genocídio e exploração. Até certo ponto, Obama quis manter essa mistificação conciliadora em torno de sua figura. Porém, agora, no crepúsculo de sua gestão, fica nítido que nenhuma varinha mágica conseguiu tirar a relevância da pauta racial na agenda política norte-americana.

Especialmente quando analisamos as alternativas de sucessão à Casa Branca: 1) Hillary Clinton tem um histórico tenebroso com as pautas raciais. Nos anos 90, promoveu a aprovação de reajustes na legislação criminal que foram responsáveis por um boom de encarceramento em massa da população negra. Além disso, foi importante ativo na reprodução do termo “superpredadores”, que buscava tachar a juventude negra como seres animalizados sem emoção propensos ao crime que poderiam, em liberdade, aliciar os filhos da classe média branca. 2) Donald Trump conduziu uma campanha que fala por si só no quesito racial. Num de seus discursos verborrágicos, chegou a afirmar que “mexicanos são estupradores” e que comunidades negras são “um inferno”. Além disso, ele recebeu, sem aparente constrangimento, o apoio de vários defensores da supremacia branca, como o líder da Ku Klux Klan, David Duke.

Se, por um lado, Obama será lembrado como um presidente com várias contradições que foi incapaz de mediar conflitos raciais, por outro, será celebrado como um marco histórico, simbólico na política global. Não é por acaso que a internet já está repleta de artigos e memes antecipando a nostalgia da primeira família negra que ocupou a Casa Branca – que, como nos lembra Michelle, foi erguida por trabalho escravo. Graças a Obama, uma nova geração inteira não precisará se perguntar se um negro poderia, um dia, se tornar o “homem mais poderoso do mundo”.  Essa mesma geração terá na memória as mortes de Eric Garner, Michael Brown e Travyon Martin, que foram vítimas do racismo corporativo da polícia e justiça norte-americana mesmo estando um negro no topo da cadeia alimentar. A lembrança de um movimento que precisou atestar a obviedade de que #VidasNegrasImportam em resposta à exacerbação dos ataques institucionais às comunidades negras também estará para sempre atachada à gestão Obama como sua melhor antítese no combate ao racismo. Enquanto Obama procurou o caminho da conciliação morosa e entorpecente que lhe rendeu a simpatia do eleitorado branco, o #BlackLivesMatter veio com uma esfuziante denúncia aos pilares supremacistas da institucionalidade posta que não se via desde os Panteras Negras.

Quanto ao futuro “pós-racial” tanto evocado em 2008, não se faz mais menção a ele a não ser para debochar da ingenuidade de uns e do mau-caratismo de outros. Dormimos com Obama, sonhamos com um mundo sem raça nem racismo, e acordamos com um sistema intacto de privilégios. Talvez nenhum lema encapsule melhor o espírito de sua administração do que a frase da poetisa afro-americana Audre Lorde: “As ferramentas do senhor jamais desmontarão a casa-grande”.

Farewell, Mr. President!

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