Atualizado para corrigir erros de digitação (30.set, 17:56).
A Congregação da Faculdade decidiu, à unanimidade, declarar o reitor e ex-diretor João Grandino Rodas (turma 138) persona non grata. A medida foi anunciada no ato de repúdio organizado pela representação discente e o Centro Acadêmico, que começou às 19h30.
O ato, a que compareceram cerca de 300 pessoas, contou com a presença de professores, representantes dos funcionários e estudantes ligados a grupos políticos, que fizeram uso da palavra.
Ato reúne dissidências
Mesmo professores que não costumam se envolver nesse tipo de mobilização participaram da mesa, que reuniu até aqueles com histórico de desentendimento.
Dentre os professores sentados ao lado do diretor, estavam o professor titular e procurador-geral do Estado Elival da Silva Ramos (turma 145), o professor titular Virgílio Afonso da Silva (turma 164), ambos do departamento de direito do estado, e o professor titular de direito comercial Calixto Salomao Filho (turma 157), além do professor titular de direito romano Eduardo C. S. Vita Marchi (turma 150), diretor entre 2002 e 2006.
Do lado dos alunos, havia consenso entre a representação discente, a gestão do Centro Acadêmico (Fórum da Esquerda), o Movimento Resgate das Arcadas, o coletivo Avante! e o recém-lançado Conscerto, embora os partidos tenham ficado com falas apenas no final do ato.
Falas dos alunos
O ato foi iniciado por Pedro Igor Mantoan (181-13), representante discente na Congregação, que listou outras “iniciativas antidemocráticas” do reitor, relembrando seu pedido para a intervenção da Polícia Militar dentro da Faculdade em 2007.
Ele foi seguido por Gabriel Borges (182-14), do Fórum da Esquerda, que falou pela gestão do CA. Borges também fez referência a outros atos do diretor, criticando sua “trajetória nefasta”.
“Hoje, nosso reitor recebe o que merece, mas não podemos parar por aí”, disse, propondo outras medidas contra o reitor, “Vamos publicar o ‘Sanfran Destaques’ em resposta ao que ele [Rodas] vem dizendo no ‘USP Destaques’, o mote da peruada pode fazer referência a ele. Mesmo o procurador-geral do Estado, prof. Elival, está aqui e pode entrar com ações judiciais contra ele, que tem prejudicado a Universidade e a sociedade paulista”.
Gabriel Borges (182-14), do Fórum da Esquerda
A menção às ações judiciais foi recebida com gestos acauteladores do prof. Marchi, sentado ao lado de Elival, que não transpareceu concordância à sugestão.
Diretor Magalhães recorda resistência à ditadura
Ao ser anunciado, o diretor da Faculdade, prof. Magalhães, foi aplaudido de pé. Ele começou seu discurso cumprimentando “meus amigos professores, funcionários e alunos”.
Comentando a decisão da Congregação, o diretor ressaltou que “nem professores da Faculdade que serviram à ditadura conseguiram esse feito [de serem declarados personae non gratae] — e tivemos professores que ajudaram a escrever o AI-5″.
Ele retomou o episódio da intervenção da Polícia Militar em 2007, quando o então diretor João Grandino Roas solicitou força policial para retirar estudantes e manifestantes que estavam na Faculdade em protesto que fazia parte da Jornada de Luta pela Educação.
“Eu estava em minha casa quando me ligaram avisando que estava acontecendo um protesto e que não tinham encontrado o prof. Grandino [Rodas] nem seu então assistente Gustavo [Mônaco, atual procurador-geral da USP, investigado pelo Ministério Público por suspeitas de favorecimento pessoal do reitor na nomeação ao cargo]. Enquanto me aprontava para sair, o Grandino me ligou e disse que eu não precisava vir, porque ele já havia chegado. Ele não queria que eu viesse porque se fosse eu não teria feito o que ele fez jamais — eu teria partido para o diálogo”, afirmou.
Para Magalhães, no entanto, a discussão não deve ficar focada na figura do reitor. “Não temos de discutir o prof. Rodas, ele não merece isso [atenção]. Temos de nos voltar à questão que está por trás”, disse, se referindo ao fato de que o reitor “como o imperador D. Pedro, é irresponsável, no sentido de que não tem de responder a ninguém”. O diretor disse lamentar a ausência do deputado federal Simão Pedro (PT-SP) da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, a quem poderia sugerir que a questão de accountability dos reitores de universidades públicas fosse discutida pelo legislativo.
O diretor terminou sua fala com versos de Chico Buarque, em referência a Rodas: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”, recitou, sendo recebido com aplausos efusivos.
Prof. Marchi é ovacionado
Chamado a falar, o professor Marchi foi ovacionado. Visivelmente emocionado, ele ressaltou que “apesar das diferenças que sempre existem [referindo-se a hostilidades entre professores], ninguém tinhado feito isso que fez o prof. Grandino: disparar contra nossa alma mater, a Faculdade, o que o reitor fez ao não distribuir a verba necessária para nossas reformas e suspender convênios”. Para ele, isso explica a medida tomada pela Congregação contra o reitor, que também seria inédita em relação a professores da Faculdade. O último declarado persona non grata teria sido Getúlio Vargas.
Ele citou a trova composta pelos versos de Tobias Barreto (Quando se sente bater…) — cantada em coro pelos presentes — e concluiu: “vamos para a guerra e, se necessário for, morreremos!”.
Prof. Shecaira ‘agradece’ ao reitor
O professor titular do departamento de direito penal Sérgio Salomão Shecaira (turma 152) iniciou sua fala “agradecendo o reitor por esse dia memorável”. Ao relatar que Rodas tinha sido declarado persona non grata pela unanimidade da Congregação, Shecaira revelou ter sido o autor da proposta.
“Eu tive o prazer — perdoem dizer, o tesão — de propor a medida.
Prof. Sérgio Salomão Shecaira (turma 152)
Ele ainda afirmou que a Congregação tinha decidido encaminhar ao Ministério Público ofício com uma lista de “pelo menos cinco atos de improbidade administrativa para investigação”.
Representação discente organiza novo ato em frente à reitoria
Antes de abrir a palavra aos inscritos, o representante discente Pedro Igor Mantoan chamou todos a participar de ato de protesto a ser organizado em frente à reitoria no início da semana que vem, que já contaria com o apoio do grêmio da FAU e outras entidades estudantis.
Outras falas
Prof. Virgílio Afonso da Silva (turma 164)
Eu conheci o professor João Grandino Rodas quando ele começou a fazer sua campanha para a diretoria. Embora eu tenha sido aluno aqui, tenha feito pós-graduação aqui e inclusive tenha me tornado professor — durante todo esse tempo, nunca tinha visto esse sujeito, que é professor desde minha época de graduação.
Hoje eu fiz um desabafo na Congregação. Desde 2006 eu contesto as medidas desse sujeito, mas antes eu era visto como “o menino que não quer se enquadrar”. Hoje nós percebemos que ele [Rodas] está numa ego trip inacreditável desde 2006. Ele, que gosta tanto de títulos e penduricalhos, tem agora mais um [de "persona non grata"]: dá até pra colocar no Lattes [plataforma do CNPq que congrega currículos de acadêmicos].
Prof. Jorge Luiz Souto Maior (turma 155)
Vocês me desculpem, mas eu vim aqui agradecer o reitor. Vejam bem o que fez João Grandino Rodas: ele conseguiu que todos se reunissem contra ele.
Precisamos aproveitar esse momento para rediscutir a universidade pública, estabelecer nova Estatuinte, ampliar nossos horizontes.
Nossa manifestação não pode parar aqui. Temos de fazer um ato de desagravo da Faculdade de Direito em frente à reitoria. Vamos “rodar o Rodas”, em nome da democratização e da melhoria do ensino público.
Alexandre Pariol Filho, representante dos funcionários, pedagogo
Cada um de nós pode ir para casa, olhar para o espelho e dizer: eu não aceitei o que foi feito para minha Faculdade.
Hoje, eu estive em solidariedade ao diretor da nossa casa, o professor Antonio Magalhães. Mas também estive em solidariedade àquele trabalhador terceirizado; a cada um de nós, trabalhadores dessa Universidade, que fomos ameaçados com corte de ponto [durante a greve do ano passado]. Também estive em solidariedade a cada estudante que está sendo ameaçado de expulsão dessa Universidade [em referência aos estudantes da USP que respondem a processos administrativos por terem participado de mobilizações]. Eu também estive solidariedade àquele cidadão pobre, estudante de direito de uma outra faculdade — com certeza com a mesma qualidade que nós temos –, que tenta entrar na biblioteca e é infelizmente é barrado por nosso colega [da segurança]: “Sinto muito, você que é de fora, não pode pesquisar nessa que é a maior universidade pública desse país”.





Triste ver uma manifestação tão fascista em um órgão público.
Macartismo é ver o Rodas falando em “caças às bruxas”, quando é ele mesmo quem inventa as polêmicas e leva o nome da São Francisco aos jornais a fim de responsabilizar os opositores.
Não tenho mais nenhuma pena do Rodas, acho que fomos até tolerantes demais com ele, que deixou as paredes da São Francisco cheias de infiltrações, cadeiras quebradas e departamentos quase paralisados.
Houve quase que um loteamento dos espaços da universidade, sem sequer abrir todos os processos administrativos e licitações necessárias exigidos pela transparência.
Sem contar aquelas nomeações polêmicas para os nomes de sala, nada disso foi adequadamente publicizado à comunidade, pelo contrário, quem levantasse a palavra para questionar o Rodas sabe bem da rebordosa que ele dirige aos opositores, que são, como ele mesmo diz, “rocambolescos” e “emocionais”, que o tratam como se ele fosse o “Pato Donald”, quando na verdade ele mais parece o Tio Patinhas querendo vender a São Francisco.
Reforma da grade, bibliotecas fechadas, tentativas de implantar catracas, tudo isso são legados do Rodas.
O fechamento da tradicional livraria jurídica do Blanco, uma conseqüência de ter trazido a Saraiva para dentro das Arcadas, sem licitação!
São tantos atos e atitudes tristes.
Uma das declarações do Rodas que mais me chatearam foi ouvir que “QUEM BATE CARIMBOS NÃO RESOLVE NADA”.Eu ouvi ele dizer isso em 2008, na crise das catracas. Tudo bem que quem bata os carimbos não possa resolver muita coisa, mas, ouvir isso do diretor da minha faculdade naquela época foi para mim algo como uma bofetada. Eu era estagiário da Procuradoria do Município e batia carimbos o dia todo. Ouvir isso do diretor foi muito chato, parece um desapreço pelos colegas que fazem essa atividade ainda comum.
Resgate e Fórum tem suas diferenças profundas, mas acho que ambas as correntes foram ofendidas pelo Rodas. O jeito com que Rodas expôs o nome da ex-presidente do XI na imprensa, acho que não foi nada agradável saber que a nossa representante foi exposta daquele jeito nas páginas dos jornais.
Se o posicionar-se contra as políticas estudantis de Rodas é o facismo, então, o que dizer do que ele fez com os movimentos sociais em 2007 chamando a tropa de choque? Ali iniciou-se uma polarização exagerada, e Rodas foi se tornando o poderoso que se tornou, apoiado por todos, mas agindo progressivamente contra a comunidade.
Houve exageros em 2007, naquela luta de jornadas da educação, não há dúvidas, eu mesmo critiquei o Centro Acadêmico na época, e me causou um incômodo.
Mas essas discussões provocaram reflexão, e hoje, quando é necessário lutar contra a corrupção e denunciar a crise das esquerdas e das direitas do país, faz-se necessário recordar que a academia é um espaço de discussão, algo que os parlamentos do Brasil não tem feito ou mesmo tem impedido.
Tornou-se corriqueiro chamar a tropa de choque para evitar ocupações de assembléias e parlamentos. Impede-se as discussões sobre direitos sociais fundamentais.
Não há democracia que seja possível sem a participação dos cidadãos no processo legislativo.
A academia é um local para que possamos pesquisar, e isso não tem sido feito adequadamente. Todavia, a academia é um espaço onde temos juristas, sociólogos, filósofos, todos querem ouvir e discutir com a população. A academia ouve mais que o parlamento, por isso ela é tão importante.
Culpa minha e nossa se estudamos pouco, fazemos muitas discussões e publicamos quase nada de científico valor, mas, ao menos, como franciscanos, tentamos viver com a nossa amizade no Pátio, fazemos poemas, alguns de nós vão aos jurídicos ou se empenham heroicamente nos casos do DJ.
Contra o estilo Rodas de chocar a universidade, eu já deveria ter lutado há muito tempo. Rodas, infelizmente, decepciona mais uma vez.
Podem me chamar de fascista, mas não posso apoiar Rodas.
Se o Lula declarou que queria extirpar o DEM (essa uma declaração horrível para um governante eleito dito popular!), o Rodas também choca a comunidade tentando dividí-la ao declarar que [...]É doloroso observar que os “cabeças” do movimento passam pela vida da FD (alguns já a deixaram,outros estão prestes a deixá-la, mas, com certeza,todos a deixarão um dia), transmitindo seu legado negativo de desconfiança do colega,de falta de iniciativa e de não-realização.[...] – (BOLETIM USP destaques 27/09/2011)
Rodas, mais uma vez, tentando de se passar por vítima! Ele deveria ter vindo aqui no ano passado, para esclarecer tudo. Preferiu as discussões distantes.
Eu já estou há seis anos na São Francisco, conheci colegas de direita, de esquerda, de centro e neutros, mas nunca vi ninguém falando desse jeito, que todos um dia deixarão certamente deixarão a São Francisco.Isso é muito chocante!
Ninguém deixa a San Fran, nossos corações permanecem na gloriosa mesmo após a formatura, indepedentemente das correntes políticas a que nos tendenciamos.
Não quero cargos políticos e parabenizo o jornal Arcadas por possibilitar a discussão.