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Blockchain: uma tecnologia democrática?

Por Kevin Eiji

“The fundamental impulse that sets and keeps the capitalist engine in motion comes from the new consumers’ goods, the new methods of production or transportation, the new markets, the new forms of industrial organization that capitalist enterprise creates.” (SCHUMPETER, 1943)

Quando Satoshi Nakamoto, uma pessoa ou grupo de pessoas anônimas, lançou o artigo Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System quando estourou a crise de 2008, propunha-se a criação de uma moeda independente de qualquer entidade central para emissão, lastro, ou da confiança de uma instituição financeira para as transações. A ideologia por trás do Bitcoin é quase anarquista: criou-se uma moeda[1] autônoma, completamente peer-to-peer, livre de controle estatal e de bancos, puramente rodada pela colaboração computacional das massas e, ainda assim, segura e anônima.

Sem entrar em detalhes técnicos, o sistema de Bitcoin baseia-se na tecnologia do Blockchain, uma base de dados compartilhada. As transações de Bitcoin são gravadas cronologicamente sob a forma de blocos e validadas através de criptografia. Como qualquer usuário pode acessar as informações do Blockchain, mas não pode alterar as transações anteriores, a tecnologia é uma ferramenta poderosíssima para o registro, validação, compartilhamento de praticamente qualquer ativo – seja ele financeiro, uma música ou mesmo propriedade intelectual.

O enorme potencial da tecnologia Blockchain para praticamente qualquer indústria imediatamente remete ao conceito de “destruição criativa” de Joseph Schumpeter. Segundo o autor, o sistema capitalista deve ser analisado de maneira dinâmica, e entende que o crescimento econômico a longo prazo só é sustentado com grandes inovações de produtos e processos tecnológicos por empreendedores, que, no processo da destruição criativa, acabam por minar o valor das empresas já estabelecidas.

Entretanto, por mais que originalmente a ideia do Blockchain flerte com um anarquismo colaborativo, é um dado que, nos desenvolvimentos recentes, são os grandes bancos e instituições financeiras que tomaram frente nas pesquisas para o uso da tecnologia no mercado financeiro, a fim de aperfeiçoar suas operações e reduzir drasticamente seus custos operacionais – as estimativas feitas pelo Santander apontam que bancos podem economizar de 15 a 20 bilhões de dólares anualmente. O consórcio R3, por exemplo, hoje já reúne mais de 70 instituições 0financeiras, como Bank of America, Deustche Bank e mesmo a B3 (fusão da BM&FBovespa com a CETIP), que juntas colaboram para o desenvolvimento do blockchain para o mercado financeiro.

Como natural de um mercado concentrado e com altas barreiras de entrada, no mercado financeiro, a destruição criativa pelo blockchain está vindo da adoção da tecnologia pelas já gigantes instituições financeiras, não por novos entrantes. Ainda assim, para os bancos dominantes no mercado, há incentivos para desacelerar os avanços tecnológicos e manter o status quo—e seu lugar nele—pelo maior tempo possível. Desse modo, os consórcios de instituições financeiras para pesquisa de blockchain estão divididos entre aqueles que de fato buscam o desenvolvimento da tecnologia, e aqueles que apenas estão lá para impedir o progresso[2].

Assim, mesmo com todo o hype pelo Blockchain e seu potencial de remodelar mercados, precisamos ter em mente que boa parte das mudanças virão, talvez a passos lentos, de empresas já bem consolidadas, em especial no mercado financeiro. Muito dificilmente o Blockchain atingirá os anseios de ordem libertária provavelmente desejados por Satoshi Nakamoto. Esperemos apenas que a redução de custos de transação e operacionais beneficie também a nós, os consumidores finais.

[1]                      Ressalto que a discussão da natureza juridical de moeda e do Bitcoin não interessa a esse texto. O ponto relevante é que o Bitcoin foi criado para atuar como uma moeda.

[2]                      http://www.bain.com/publications/articles/blockchain-in-financial-markets-how-to-gain-an-edge.aspx

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